Luto pós parto
Escrito 06/01/2024
Hoje eu chorei. Chorei de frustração por não ter mais o tempo que eu quero pra fazer as coisas. Por não poder fazer as coisas que eu quero. Desde que criei a newsletter, quis falar sobre o luto que passei depois do parto. E hoje percebo que ele não passou. Ele ainda está aqui. Mais suave, mais sutil, mas presente. Ainda me pego sofrendo pela vida que não tenho mais. Pela vida que nunca mais terei.
Terei outras vidas, eu sei. A vida é cíclica. Aprenderei a lidar com ela de outra forma. Aprenderei a lidar comigo de outra forma. Mas ter um filho é dizer adeus a vida anterior. É dizer adeus ao eu anterior. É aprender, aos poucos, quem sou agora ou quem estou me tornando. É só que eu ainda não aprendi. Eu ainda não me descobri. E, mesmo depois de nove meses, ainda não me acostumei com as mudanças constantes que o dia a dia com o bebê traz.
E, mesmo entendendo a transformação que acontece em mim, não consigo evitar. Não consigo evitar querer. Não consigo controlar essa cabeça eternamente pensante, que quer sempre mais. Até porque viver com um bebê traz muitas novidades, muitas ideias, muitas alegrias. Mas onde colocar tudo isso se me falta tempo?
Que saudade do tempo. Saudade de quando tinha tempo. Tempo para fazer as minhas coisas. Tempo para fazer nada. Que saudade de fazer nada. De ficar de pés pra cima. De assistir séries sem fim. De ficar no celular sem propósito. De dormir sem limite. De dormir! Que saudade de dormir sem interrupção. Saudade.
Nos dias que seguiram o nascimento do meu pequeno, a pressão que senti ao segurar aquela nova vida em mãos, minha responsabilidade agora, o medo de tudo de errado que poderia acontecer a partir de então e a realidade de que minha vida mudou bateram forte. A vida que mudou. Mudou pra sempre. O luto quase me sufocou. Tão intensamente que me perguntei: por que fiz isso? Onde eu estava com a cabeça? A vida estava tão fácil antes e eu nem sabia. O peso que caiu sobre mim, do dia para a noite, foi esmagador. Talvez, naquele momento, se pudesse voltar no tempo, eu teria voltado. Talvez. Talvez não. Provavelmente não. O amor já tinha me dominado antes mesmo de tê-lo em minhas mãos.
Hoje, o amor consegue ser ainda maior. É inimaginável o que esses pequenos fazem com a gente. O amor e a alegria que trazem para as nossas vidas. Se me sentia preenchida antes de tê-lo, hoje transbordo. Mas isso não me impede de, ainda assim, seguir de luto. De luto pela vida que não me pertence mais. A vida agora não é mais só minha.
E que bom que não é.



Acompanhar a maternidade através das suas palavras tem sido intenso e emocionante de ler 🤍
Que texto lindo, real e honesto!!